Casa Azul - Marc Chagall
Minha casa era azul. Ficava no topo de uma penha. Era uma vila, quase uma cidade do interior dentro da cidade maior. As pessoas andavam nas ruas e minha filha dizia que eu e meu pai éramos os mais branquinhos da rua. Porque éramos todos morenos ou negros.
A construção dessa casa foi sobre os escombros de uma desilusão, carregada de profundezas. Remeteu à morte, à rejeição. Havia violência, coisa conhecida, modo ancestral de receber alguma atenção.
Houve pouca opção, afinal era aquilo ou um retorno ao teatro infantil, familiar, onde meu papel não me cabia mais. Então me movi e trabalhei, trabalhei muito. Recebi apoio do meu pai, me submeti, tomei decisões, projetei, realizei.
A escolha da cor foi minha: azul fiorentino. Molduras brancas nas janelas, quadriculadas. Meu maior luxo, uma bay-window, que por 10 anos ficou sem revestimento. Era uma proa de navio sobre a cidade, sobre as luzes da cidade. Houve várias madrugadas em que, insone, deitei-me sob a luz das estrelas, mirando o horizonte longínquo até que a claridade do sol começasse a despontar no leste.
Desde a amenidade da temperatura no verão ao sol que aquecia meus pés gelados no inverno, essa era uma casa construída para ser minha. De uma geografia peculiar, que, na opinião de uma amiga arquiteta tinha um traçado labiríntico que não favorecia a convivência, o que se pode dizer? Não se pode dar o que não se recebeu.
Dormimos a primeira noite, juntas na mesma cama, minha filha e eu. O medo era certamente maior em mim. A casa de meus pais, sendo construída no pavimento superior, ainda demoraria meses para ficar pronta. Éramos uma mulher de 27 anos e uma menina de 4. Um cachorro vira-lata no quintal só para dar alarme. E o bairro silencioso a tal ponto que escutávamos a conversa dos passantes.
Vi a alegria renascendo no rosto da minha filha, privada de seus brinquedos por um ano, o tempo que durou a construção. A reconstrução da minha vida.

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